Você está na perimenopausa e ainda não percebeu?

A perimenopausa costuma ser reconhecida tardiamente — e a razão não é falta de sintomas, é uma limitação dos próprios critérios diagnósticos tradicionais, historicamente ancorados em mudanças no ciclo menstrual. O problema é que boa parte dos sintomas hormonais dessa fase se manifesta antes de qualquer alteração perceptível no ciclo.

O estudo AMY (Australian Women’s Midlife Years), publicado em 2025 na Lancet Diabetes & Endocrinology, é o maior levantamento já realizado sobre o tema, avaliando mais de 8.000 mulheres entre 40 e 69 anos. O achado central: quase 40% das mulheres em fase tardia da perimenopausa vivem com sintomas vasomotores (fogachos e suores noturnos) de intensidade moderada a grave — sem qualquer tratamento. O estudo identificou ainda que mulheres com ciclos menstruais regulares, mas já apresentando sintomas vasomotores, frequentemente são classificadas como “pré-menopausa” pelos critérios convencionais (STRAW+10), apesar de exibirem padrão fisiológico compatível com perimenopausa — um ponto cego real na forma como o diagnóstico costuma ser feito.

Entre os sintomas que costumam aparecer antes do que se espera estão: fogachos, sono fragmentado, dificuldade de concentração (“neblina mental”), oscilação de humor e ressecamento vaginal.

Esse atraso no diagnóstico tem consequência direta: uma pesquisa nacional de 2025 encontrou que cerca de 40% das mulheres que buscaram atendimento por sintomas de perimenopausa relatam ter recebido diagnóstico incorreto. Mais da metade foi tratada por ansiedade, depressão ou crises de pânico — sendo que 1 em cada 3 recebeu, especificamente, diagnóstico de ansiedade.

Parte dessa lacuna tem origem estrutural: um levantamento de 2023 com programas de residência em ginecologia e obstetrícia nos Estados Unidos encontrou que apenas 31% incluem currículo dedicado à menopausa — e, entre os que incluem, a maioria oferece o equivalente a duas aulas por ano ou menos.

Um ponto importante para quem busca esclarecimento: o diagnóstico da perimenopausa é essencialmente clínico. Após os 40 anos, não é necessário — nem sempre é útil — depender de um único exame hormonal, já que marcadores como o FSH oscilam de forma ampla e pouco previsível durante essa fase de transição. O reconhecimento correto depende, sobretudo, de uma investigação clínica atenta ao conjunto de sintomas.

Referências:

 Mishra GD, et al. Prevalence and severity of menopausal symptoms across reproductive stages: the Australian Women’s Midlife Years (AMY) Study. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025.

 Allen AM, et al. Menopause training in obstetrics and gynecology residency programs. Menopause. 2023.

 Biote. National survey on perimenopause diagnosis and misdiagnosis. 2025.