Prevenção não é tratamento — e essa confusão tem um custo real

É comum confundir estratégias de prevenção de obesidade — como políticas públicas de taxação diferencial de alimentos, restrição de marketing infantil e rotulagem nutricional — com tratamento da doença já instalada. Embora seja fundamental avançar essas políticas para conter o crescimento dos índices de obesidade, elas isoladamente não ajudam quem já convive com a doença a se tratar — ainda que um ambiente menos obesogênico certamente facilite a adesão ao tratamento.

Por isso, quem defende a importância da prevenção precisa, de forma consistente, também defender tratamento sério para quem já tem obesidade: programas estruturados de estilo de vida, com acesso a medicação de uso a longo prazo, além de cirurgia bariátrica para pacientes elegíveis. O tratamento adequado da obesidade é, em si, uma forma de prevenção — em pelo menos duas frentes.

Prevenção de outras doenças crônicas. Cada quilograma perdido está associado a uma redução de 16% no risco de desenvolver diabetes tipo 2, segundo dados do Diabetes Prevention Program (Hamman et al., Diabetes Care, 2006). Tratamentos farmacológicos mais recentes ampliam esse efeito de forma expressiva: no estudo SURMOUNT-1, a tirzepatida reduziu em 94% o risco de progressão de pré-diabetes para diabetes tipo 2 ao longo de três anos de acompanhamento. O mesmo padrão de benefício se estende à hipertensão arterial, à apneia obstrutiva do sono, à doença cardiovascular e a pelo menos 13 tipos de câncer já associados à obesidade.

Prevenção da obesidade na geração seguinte. Um corpo crescente de evidência em epigenética mostra que a obesidade parental altera a expressão gênica na prole — mecanismos identificados tanto no espermatozoide quanto no óvulo, além de alterações no próprio ambiente intrauterino. Some-se a isso o papel do ambiente familiar e social compartilhado. Tratar adequadamente a geração atual é, portanto, parte da estratégia para conter o crescimento da obesidade nas gerações futuras.

Prevenção e tratamento são estratégias distintas, cada uma relevante por si só. Mas, em pontos centrais, elas não podem ser tratadas como totalmente separadas — e políticas de saúde que negligenciam o tratamento em nome da prevenção deixam desassistida justamente a parcela da população que já precisa de cuidado.

Referências:

 Hamman RF, et al. Effect of weight loss with lifestyle intervention on risk of diabetes. Diabetes Care. 2006;29(9):2102-2107.

 SURMOUNT-1 3-year results: tirzepatide and progression from prediabetes to type 2 diabetes. Eli Lilly and Company, 2024.

 CDC. Cancers Associated with Overweight and Obesity.